sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ludoterapia


Ludoterapia é uma técnica terapêutica de abordagem infantil, uma excelente ferramenta que por meio da brincadeira, do jogo e da imaginação possibilita que a criança no simples ato de brincar, comunique-se, expresse seus sentimentos.
 Diferentemente dos adultos, os pequenos ainda não possuem maturidade na comunicação verbal, e desta forma, a brincadeira torna-se naturalmente um meio de auto-expressão da criança. Em outras palavras, a brincadeira e o fantasiar podem ser considerados a linguagem simbólica da criança.
No contexto terapêutico, o psicoterapeuta infantil apropria-se desta realidade natural e familiar para criança, e ao propor atividades lúdicas, jogos, representações e brincadeiras, cria um ambiente favorável para a expressão de tristeza, tensão, frustração, raiva, medo, insegurança, agressividade, confusão, ou seja, sentimentos que a criança na maioria das vezes ainda não consegue identificar ou nomear.
Por meio da expressão lúdica podem ser trabalhados diversos temas, tais como perdas, morte, insegurança, medos, ciúmes, dentre tantos outros; e o que irá determinar é a demanda individual de cada criança, de cada cena, cada história. Pode-se dizer que o objetivo principal da Ludoterapia é ajudar a criança a expressar com maior facilidade, e de maneira simbólica, seus conflitos e dificuldades.

Por Giselle Magalhães
“É possível descobrir mais de uma pessoa em uma hora de brincadeira do que um ano de conversa” (Platão)

A Criança e a Timidez


        A timidez também se aprende, ela não nasce como parte integrante do ser. A criança tímida aprendeu a ser assim. Trata-se de mais um comportamento pré-fabricado, dentre tantos que existem para rotular os indivíduos, lhes dar identidade. A timidez também se torna um identificador de indivíduos, é a mesma coisa que outros rótulos, tais como, medroso, ou corajoso, culto, popular, extrovertido, etc. 

        Um indivíduo corajoso, apenas repete os gestos superficiais, alegóricos, que caracterizam aquilo que chamamos de coragem. Assim coragem, ou demonstração de bravura, são simples roteiros que se seguidos à risca, tornam qualquer um medroso, ou corajoso, ou bondoso, não significando, entretanto, que internamente, dentro de si, aquele indivíduo seja qualquer uma dessas coisas.
        Se, para se fazer um bolo basta seguir um receituário, para ser medroso ou corajoso, vale a mesma regra. É como um ator a representar seu papel teatral daquele dia. Representando, fingindo, ele é capaz de se tornar corajoso, ou extrovertido, ou covarde. Ele pode se tornar qualquer personagem, sem, no entanto, ser nenhum deles de fato.
      Para entender a timidez, precisamos entender como se sente alguém tímido, que fatores externos e depois internos, o levaram a interpretar, na vida real, esse papel ingrato. Mais importante, no entanto, é compreendermos porque existe este tipo de comportamento, esse modelo de personalidade, que faz parte de um indivíduo, que às vezes o domina, que o controla e dirige a sua vida, aparentemente, à revelia da sua vontade.
      Sabemos como nasce alguém tímido. Eles são criados a partir das comparações com outrem. Afinal de contas, um tímido é alguém que sempre está em desvantagem, seja em relação a um, seja em relação a muitos. Ele se compara, não porque o deseje, mas porque já foi comparado antes, e logo se sente inferior, é um sentimento de inferioridade, de incapacidade. Logo sua auto-estima é baixa.
        Criamos o tímido quando louvamos qualidades nos filhos alheios, ou dos seus colegas, ou dos seus irmãos, deixando claro que estas, a nossa criança, aquela que é comparada, não possui. Um padrão de beleza que todos desejam ter, que passa a valer como ingresso de aceitação social, como um salvo conduto para merecer a atenção de um grupo, como um ingresso para fazer parte desse grupo, cria ou acentua a sensação de insegurança, própria do tímido.
        Por isso trabalho em grupo é tão importante, sendo essencial, no entanto, que educadores e pais, criem na turma a ideia de igualdade. Isso se consegue na delegação adequada das tarefas, onde, ninguém deverá receber méritos diferenciados, ou ser elogiado por alguma particularidade. Deve-se elogiar sim, não um autor, mas a qualidade do trabalho, destacando-se as qualidades de cada um, sem classificar como menos ou mais, mas como igualmente importantes quando postas em conjunto, como resultado final.

      Compreender a timidez, isto é, seu plano de atuação na formação da psique da criança ou jovem, liberta o adulto inseguro, frustrado, violento e insatisfeito que seria seu futuro. Não podemos menosprezar a sensação de insegurança, que é quase uma regra entre os mais novos, assim como não podemos menosprezar, o medo que tenham, por exemplo, de falar em público. Isso apenas aumenta sua frustração e sensação de pequenez, que por si mesmo já é grande, não precisando, portanto, de alguém para lhes lembrar daquilo que já sabem ser. 
        Restaurar a segurança, ou confiança perdida, de uma criança ou jovem, primeiro começa pela compreensão, da parte do educador, de que aquele sentimento merece atenção e consideração. E apenas assim, ao ganhar o respeito do educador que se mostra solidário consigo, ela se mostrará disposta a ouvir seus conselhos. 
        Compreender então as diferenças, respeitá-las assim como o são, deve ser o primeiro passo do educador que deseja ajudar. Mas só poderá ajudar se o outro o permitir, e este só lhe dará acesso, se confiar em suas intenções. Isso se comprova pelo comportamento, palavras e ações, e nunca com discursos, por mais floridos que possam parecer. O tímido é mais observador que os demais, está sempre atento, até como meio de se proteger dos ataques que sempre acham virão de fora. 
        E finalmente, não se cura a timidez com as comparações, isso apenas tende a agravar o quadro. Comparar um tímido a alguém de comportamento não retraído, é o mesmo que fazê-lo sentir-se culpado pelo fato de ser inseguro, quando na verdade ele o aprendeu a ser. Aprendeu de forma involuntária, à revelia de sua vontade, do seu consentimento, sem direito à escolha. Lembre-se sempre de que, nós também aprendemos todos os nossos desejos e manias, medos e vaidades, sejam desagradáveis ou não, sem o nosso consentimento, se depois os rejeitamos ou aprovamos, isso é outra história.

Texto de Jon Talber / Ester de Cartago[1]


[1] Jon Talber é pedagogo e escritor de temas de auto-ajuda. Estudou por muito tempo filosofia oriental e antropologia. Torna-se mais um colaborador eventual do nosso Site, onde pretende compartilhar parte daquilo que aprendeu.
Ester Cartago é psico-orientadora em educação infantil e fundamental. Pesquisadora em antropologia social e fobias, também escritora de contos infantis, e colaboradora eventual do Site de Dicas. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Atenção aos pais sobre a Medicalização

Carta do Mercosul

          Atualmente,    assistimos    a    uma    multiplicidade    de    “diagnósticos” psicopatológicos e de terapêuticas que simplificam as determinações dos transtornos infantis e retornam a uma concepção reducionista das problemáticas psicopatológicas e de seus tratamentos. Esta concepção utiliza, de modo singularmente inadequado, notáveis avanços no terreno das neurociências para deles derivar, ilegitimamente, um biologismo extremo que não dá qualquer valor à complexidade dos processos subjetivos do ser humano.   
          Procedendo de maneira sumária, esquemática e carente de verdadeiro rigor científico se fazem diagnósticos e até se postulam novos quadros psicopatológicos a partir de observações e de agrupamentos arbitrários de riscos, baseados em antigas e confusas noções. É o caso da chamada síndrome de “Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade” (TDA/TDAH), da Dislexia, do Transtorno de Oposição Desafiadora (TOD) e outros transtornos constantemente inventados e reinventados, lançados a cada dia em prateleiras de mercados como novas mercadorias. Rótulos e etiquetas, maquiados de diagnósticos, e pílulas de psicotrópicos prometem resolver todos os conflitos naturais da vida, tirando a vida de cena.
          Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e consequentemente “consumidoras”    de    exames,    tratamentos,    terapias    e medicamentos, que transformam seu corpo e sua subjetividade em problemas, alvos da lógica medicalizante, que deverão ser sanados individualmente. Por sua vez, supor que diagnosticar é atribuir um nome, leva-nos a um caminho pouco rigoroso, porque desconhece a variabilidade das determinações daquilo que é nomeado. Assim, um movimento de uma criança pode ser considerado normal ou patológico segundo o observador, bem como as dificuldades de linguagem podem ser localizadas como um “transtorno” específico ou como sintoma de dificuldades vinculares segundo aquele que esteja “avaliando” essa criança. Portanto, as classificações tendem a agrupar problemas muito diferentes somente porque sua aparência é similar.
Vivemos tempos marcados por crescente medicalização de todas as esferas da vida; vivemos a Era dos Transtornos.
          A expressão ‘medicalização’, cunhada nos anos 1970, foi usada por Ivan Illich em seu livro ‘A expropriação da saúde: nêmesis da medicina’, ao alertar que a ampliação e extensão do poder médico minavam as possibilidades das pessoas de lidarem com os sofrimentos e perdas decorrentes da própria vida, transformando as dores da vida em doenças. Segundo o autor, a vida estaria sendo medicalizada pelo sistema médico que pretendia ter autoridade sobre pessoas que ainda não estariam doentes, sobre pessoas para quem não se poderia racionalmente esperar a cura, e sobre pessoas com problemas para os quais os tratamentos prescritos por médicos teriam resultados semelhantes aos dos oferecidos por familiares mais experientes.
          As expressões medicalização e patologização designam processos que transformam, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos. Problemas de diferentes ordens são apresentados como “doenças”, “transtornos”, “distúrbios” que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas. Questões coletivas são tomadas como individuais; problemas sociais e políticos são tornados biológicos.
          Nesse processo, que gera sofrimento psíquico, a pessoa e sua família são responsabilizadas pelos problemas. Tratar questões sociais como se biológicas iguala o mundo da vida ao mundo da natureza. Isentam-se de responsabilidades todas as instâncias de poder, em cujas entranhas são gerados e perpetuados tais problemas. Tudo se passa como se as pessoas é que tivessem “problemas”, fossem “disfuncionais”, “não se adaptassem”, fossem “doentes”, sendo, até mesmo, judicializadas. No mundo da natureza, processos e fenômenos obedecem a leis naturais. A medicalização naturaliza todos os processos e relações socialmente constituídos e, em decorrência, desconstrói direitos humanos, uma conquista histórica de homens e mulheres, que se inscreve no mundo da vida.
          A aprendizagem e os modos de ser e agir – campos de grande complexidade e diversidade – têm sido alvos preferenciais da medicalização. Cabe destacar que, historicamente, é a partir de insatisfações e questionamentos que se constituem possibilidades de mudança nas formas de ordenação social e de superação de preconceitos e desigualdades. A medicalização cumpre assim, também, o papel de abortar questionamentos e movimentos por mudanças, o que, no limite, pode representar o extermínio de possibilidades de construção de um futuro diferente.
          É alarmante o número de crianças e adolescentes medicados por TDA/TDAH sem que se formulem perguntas sobre as dificuldades que apresentam os adultos para acolher, transmitir, educar e sobre o tipo de estimulação, valores e ambiente a que estão sujeitos essas crianças dentro e fora da escola. Ou seja, supõe-se que a criança é o único ator no processo de aprendizagem. Nessa epidemia de diagnósticos, o mundo e a vida são olhados por prismas em que o que não se enquadra em rígidos padrões e normas é doença a ser tratada, medicada.
          Consideramos que é fundamental diagnosticar a partir de uma análise detalhada do que o sujeito diz, de suas produções e de sua história. A partir dessa perspectiva, o diagnóstico é algo muito distinto de se pôr um rótulo; é um processo que se constrói ao longo do tempo e que pode ter variações, porque todos passamos por transformações. Em relação às crianças e aos adolescentes, principalmente. É central levar em conta as vicissitudes da constituição subjetiva e a trajetória complexa que supõe a infância e a adolescência, bem como o papel do contexto. Assim sendo, existem estruturações e re-estruturações sucessivas que vão determinando um percurso em que se sucedem mudanças, progressões e retrocessos. As aquisições vão se dando em um tempo que não é estritamente cronológico. É por isso que os diagnósticos apresentados como rótulos podem ser claramente nocivos para o desenvolvimento psíquico de uma criança, fazendo com que esta tenha um “transtorno” para a vida toda. Deste modo se marca a história de uma criança ou de um adolescente e se nega o futuro.
          No entanto, o ser humano é efeito de uma história e de um contexto, impossível de ser pensado de forma isolada: temos que pensar também em que situações, em que momento e com quem se dá este funcionamento. A família, fundamentalmente, mas também a escola são instituições que incidem nesta constituição. Instituições marcadas, por sua vez, pela sociedade a qual pertencem. Os seres humanos são sujeitos ‘datados e situados’; trazem em seus corpos e mentes marcas de seu tempo, das esferas sociais, geográficas, históricas, políticas, culturais e afetivas em que se inscrevem. Sujeitos históricos e culturais constituem sua subjetividade em processos complexos e sofisticados em que, ao constituírem sua linguagem e seus saberes, são por eles constituídos.
          Assumir essa concepção de ser humano, de sujeito, implica assumir que os modos de ser, agir, reagir, afetar e ser afetado, de aprender e de lidar com o aprendido, de se relacionar com os demais, são socialmente produzidos. Se em determinado    espaço-tempo    muitas    pessoas    apresentam    comportamentos considerados ‘inadequados’, há que entendê-las como frutos da sociedade, produtos da dimensão histórica em que vivem.
          Esse modo de compreender o humano opõe-se frontalmente ao que assistimos nos dias atuais, em que normas artificiais, sem respaldo mesmo em valores sociais e culturais contemporâneos, são naturalizadas e apresentadas como se fossem normas biológicas, neurológicas. São divulgadas como suficientes para identificar pretensas doenças, cuja existência ainda é questionada em todos os países, pela ausência de comprovação no campo da ciência médica. Os avanços do conhecimento médico e das tecnologias possibilitam diagnósticos mais precoces e precisos, tratamentos mais eficientes, melhoria da qualidade de vida das pessoas; não se esqueça, porém, que o acesso a essas possibilidades é muito restrito. A maioria da população mundial ainda não conseguiu usufruir do conhecimento científico. Por outro lado, uma consequência mais evidente e perversa desses avanços é a amplificação da medicalização para todas as dimensões da vida.
          Para as pessoas que vivenciam e sofrem a medicalização, resta o destino de viver o estigma da “doença”, que realiza uma segunda exclusão daqueles que já haviam sido excluídos, social, afetiva, educacionalmente. Opera-se, assim, estranho paradoxo: uma nova exclusão, protegida e disfarçada por discursos de inclusão.
          A medicalização tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas, abafando questionamentos e desconfortos; cumpre, inclusive, o papel ainda mais cruel de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando essas pessoas em “portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem”. A cada dia nos defrontamos com crianças e adolescentes vítimas de violência, acompanhados por médicos – pediatras, neurologistas e psiquiatras – psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, com etiquetas de transtornos neuropsiquiátricos inerentes a eles, recebendo psicotrópicos em doses crescentes; sedadas, tornam-se ainda mais vulneráveis às agressões. Constrói-se, assim, um álibi para a violência contra crianças e adolescentes. Esse processo vem se alastrando a tal ponto que jovens em situação de abrigo judicial são capturados pela psiquiatrização, rotulados como portadores de transtornos como TDAH e/ou TOD e “medicados”. Apaga-se sua história de vida, os sofrimentos que já enfrentaram e os que ainda vivem e se lhes impõe uma segunda alienação, uma segunda expropriação de sua vida.
           Consideramos que, ao invés de rotular, devemos pensar o que é que está em jogo em cada um dos sintomas que crianças e adolescentes apresentam, levando em conta a singularidade de cada criança, cada adolescente, cada homem ou mulher, e localizando esse padecer no contexto familiar, educacional, histórico e social no qual essa pessoa está inserida.
          Diante do exposto, considera-se que : 1o Não estamos de acordo com o uso do DSM IV ou do V – em processo de elaboração ─ em qualquer pessoa, em especial em crianças e em adolescentes. 2o Defendemos que a toda criança e adolescente, pela sua condição de cidadão, sem necessidade de nenhum tipo de receita, diagnóstico, seja garantido o acesso à atenção médica, psicológica, fonoaudiológica e pedagógica de qualidade, sem restrições. 3o Defendemos que educação e saúde públicas e de qualidade são direitos de todos e dever do Estado.
          É neste contexto que o Forumadd, da Argentina, e o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, do Brasil unem-se em um movimento que busca articular entidades, grupos e pessoas de diferentes regiões e países da América Latina para o enfrentamento e superação do fenômeno da medicalização, e para mobilizar a sociedade para a crítica à medicalização da aprendizagem e do comportamento. Este movimento tem caráter ético e político e se pauta pelo rigor científico na defesa intransigente da vida.

Buenos Aires, 04 de junho de 2011