quarta-feira, 17 de junho de 2015

A adolescência chegou e agora?




Olá mães e pais que têm filhos adolescentes em casa. Fase delicada não? Este texto é um convite à reflexão para pais que enfrentam dificuldades em compreender a adolescência como uma fase complexa e importante no desenvolvimento do sujeito, e que muitas vezes não é vivenciada tranquilamente.
O desabrochar para a vida adulta traz consigo um pacote recheado de complexidade. O que é naturalmente perceptível, as mudanças hormonais, as modificações corporais, as transformações da aparência veem acompanhados de muitas outras mudanças "invisíveis". Fase de amadurecimento biopsicossocial que faz o indivíduo transitar confusamente entre o corpo infantil e a angústia de acostumar-se com um novo corpo, de lidar com as flutuações de humor que variam entre a agressividade e a apatia, e viver a contradição de ser tratado como criança e, muitas vezes ser cobrado como um adulto.
Muitos pais são pegos de surpresa, sentem-se paralisados diante de tanta novidade que aparecem do dia para noite.  Sabiam que uma hora essa fase iria chegar e se dão conta de que os filhos não vieram com um manual de instruções para papais e mamães que a pouco tempo embalaram seus pequenos entre os braços. Adolescer com os adolescentes exige paciência e muito amor.
Além da alteração da voz, do aparecimento dos pelos pubianos, da transformação do corpo, meninos e meninas vivenciam também delicadas alterações emocionais e cognitivas. E são essas alterações privadas, não tão visíveis, que acabam por rotular injustamente os adolescentes de "aborrescentes”. E é esse ponto que merece atenção, pois, inevitavelmente os aspectos comportamentais confluem com o meio e as relações, e fazem dos adolescentes seres incompreendidos. Um sinal relativamente comum de que algo não vai bem, e que as questões emocionais da adolescência estejam causando considerável sofrimento, é a queda no desempenho escolar.
Como lidar com os rompantes de humor? Como cobrar comportamentos coerentes justamente quando os adolescentes passam a questionar e exigir dos próprios pais coerência entre o que dizem e o que fazem? Como lidar com o assunto sexualidade de forma aberta e leve se os pais tiverem uma educação sexual cheia de tabus e barreiras? Para muitos pais lidar com essa nova roupagem, significa experimentar a sensação de insegurança e impotência por verem refletidos nos filhos as mesmas dificuldades e conflitos vividos na sua própria adolescência.
O primeiro amor, o despertar da sexualidade, a iniciação sexual, medos, insegurança, são alguns dos desafios emocionais vividos por pais e filhos, que as vezes percorrem esse caminho de despertar juntos, em parceria, ou na maioria das vezes num escuro silêncio. É muito comum nesta fase os jovens se distanciarem dos pais em busca de si mesmos. Flutuam entre conflitos e estranhamento de sua própria imagem corporal, a instabilidade, a busca desorientada por uma identidade e aceitação social em diferentes grupos (roqueiros, patricinhas, geeks, skatistas...), etapas que fazem parte da estruturação da personalidade.
É função da família e dos pais criarem um espaço de acolhimento e amor, e ao mesmo tempo delinear limites e regras quando percebem que os adolescentes estão em uma situação de risco por sua desorganização psíquica.
Muitos adolescentes sentem vergonha em conversar sobre certos assuntos, e os pais não se sentem confortáveis ou em condições de transmitirem informações, ou responder de forma adequada aos questionamentos levantados pelos filhos. Questionamentos sobre o porquê das regras, das normas, dos limites, dos Nãos. Quando não está bem definida a hierarquia na relação, quando os papéis não estão bem organizados, quando se confunde autoridade com autoritarismo, abre-se brecha para as confrontações, para os embates, para o distanciamento. E é neste momento que sem querer se estabelece um vácuo relacional entre pais e filhos, uma dificuldade de aproximação e de diálogo. É nesse descompasso, na dificuldade de diálogo dentro de casa que que a maioria dos conflitos se instalam.
Buscar apoio em um familiar, um professor, um psicoterapeuta é uma boa estratégia para amenizar os ressentimentos, experimentar novas formas de enxergar e atuar no cenário conturbado. Ter um olhar compreensivo para com o adolescente, que não raras as vezes, sofrem com a passagem. Buscar uma ajuda especializada, por um aconselhamento psicológico ou psicoterapia não é sinônimo de fracasso, ou de incapacidade de educar os filhos. O aconselhamento psicológico, por exemplo, visa facilitar uma adaptação emocional mais satisfatória para à situação em que sente dificuldades, ou que é notório o sofrimento psíquico, promovendo um aperfeiçoar de seus recursos próprios, para um melhor autoconhecimento e autonomia. Buscar por ajuda profissional não significa “ser ou estar louco”, significa buscar promoção de saúde.
Outra questão muito atual que os pais encontram dificuldades no manejo com os adolescentes é a escolha profissional. Há uma ansiedade e pressão muito exacerbada dos pais quanto o futuro profissional dos filhos, e esse período coincide justamente com a tão delicada adolescência. É certo que há uma preocupação por parte dos pais quanto o lugar ao sol dos filhos, a colocação e o destaque no mercado de trabalho numa realidade cada vez mais concorrida. Mas esse é um assunto que merece atenção especial, jogo de cintura e muita paciência. É preciso estar atento e dosar a pressão e influência na hora da escolha profissional do adolescente. É muito comum os pais projetarem nos filhos os seus próprios desejos. E o poder de influência dos pais na hora de uma escolha tão individual pode ser um grande erro repercutido no futuro. Há chances de os jovens virem a se tornar profissionais frustrados e infelizes, por um dia terem feito uma escolha que não condiz com seus próprios desejos e habilidades. É uma armadilha inconsciente que faz com que os pais sutilmente influenciem na escolha, e os adolescentes inundados de incertezas, acabam por optar pelo caminho que agrade aos pais, desencadeando a "ilusória" sensação de se sentirem amados e finalmente aceitos. Ter abertura e dar espaço para o adolescente expressar suas incertezas, é um bom caminho para estabelecer um diálogo franco e orientador (não influenciador) na hora de uma escolha tão importante.

Uma boa dose de amor, umas pitadas de paciência regadas com limites e tolerância, são uma boa receita para deixar crescer os adolescentes. Que esta fase seja percebida respeitosamente em sua complexidade, ao mesmo tempo em que seja vista como uma oportunidade rica na formação em adultos coerentes e mais saudáveis emocionalmente. Coerentes e si mesmos, em seus valores e forma de atuar no mundo, e consequentemente em suas relações.

Giselle Magalhães Araújo - Psicóloga Clínica