É curioso notar como tem sido cada vez mais comum e frequente discursos que patologizam sentimentos e comportamentos. Deparamo-nos a todo momento com pessoas que se auto-diagnosticam ou se auto-intitulam como portadoras de transtornos psicológicos, como se fosse considerado normal, e não o contrário, possuir algum tipo de distúrbio. Seria uma tentativa, ou senão uma necessidade do ser humano em nomear aquilo que os incomoda por dentro, ou seria simplesmente um modismo?
Neste sentido, é preocupante e assustador em como os parâmetros para o "normal" é a doença, é a tentativa de se enquadrar, ou se sentir de alguma forma acolhido e pertencente a algum grupo. Este tipo de inquietação e excesso de energia gasta começa ainda na infância, dos pais em relação aos seus filhos, se estes se encaixam ou estão desenvolvendo algum tipo de patologia. De tempos em tempos surge a nova estação de uma doença, influenciada diretamente pelo bombardeio da mídia e a facilidade do acesso à informação, e "identificação de sintomas" para um possível diagnóstico.
Houve o tempo da dislexia, do TDAH, agora os alvos estão voltados para os transtornos sexuais, especificamente a pedofilia. Nas escolas, por exemplo, os comportamentos que não se enquadram nos moldes considerados normais são patologizados, e não raro medicados.
Numa fase um pouco adiante, na adolescência, as atenções são voltadas para outros "sintomas", que se entendidos isoladamente desembocam num possível diagnóstico de depressão, ou de distúrbios alimentares como bulimia e anorexia. E estas práticas discursivas de adoecimento e banalização de diagnósticos se estendem e percorrem entre o mundo dos adultos, no ambiente de trabalho, entre amigos e familiares. É corriqueiro ouvir frases como "fulana está com depressão, está muito triste" ou "você observou como cicrano é maníaco e beltrano é completamente bipolar!".
Não é intenção ignorar a existência destas patologias, ou que as pessoas não devam estar atentas aos processos de adoecimento psíquico, e até mesmo assumam uma postura preventiva. O fator considerado como preocupante é a banalização e valorização de doenças e de possíveis patologias que tem lotado consultórios médicos, e que, sem nenhum pudor favorecem o apoderamento da indústria farmacêutica, após a queixa de uma tristeza e a medicalização para a 'cura milagrosa'. Quem já não ouviu pessoas próximas relatarem que após uma consulta com um cardiologista, ou um ginecologista lhe foi prescrito um antidepressivo, ou um ansiolítico?
Sabe-se que o sofrimento e o padecer psíquico sempre esteve presente na história, e que a produção de discursos da psicopatologia é influenciada pelo contexto sócio-histórico, político, econômico e cultural. A pós-modernidade não foge à regra, e diante de inúmeras transformações é compreensivo que as pessoas tenham dificuldades em se adaptarem às abruptas mudanças, e que esta tentativa de ajuste às novas e excessivas exigências seja um gerador de sofrimento. E, o surgimento de algum tipo de sofrimento não significa dizer que obrigatoriamente haverá a instauração de uma patologia.
O que se percebe é que cada vez mais pessoas não sabem (ou não querem) lidar com frustrações comuns da vida. Não estão dispostas a enfrentar as etapas normais da vida, tornando-se rotineiro a prescrição de medicamentos para estes fins. Sujeitos não podem ficar tristes porque um familiar está doente, que o rotulam como portador de depressão. Conferir se trancou a porta mais de uma vez pode ser indício de um comportamento obsessivo compulsivo.
Nos consultórios de psicologia, cada vez mais aparecem clientes diagnosticados, ou seja, sujeitos que reproduzem o discurso patologizado considerado comum nos dias de hoje. É fundamental que os profissionais que lidam com esta demanda estejam atentos para não reforçarem esta cultura da patologização. É natural as pessoas sofrerem por se encontrarem em uma situação difícil na vida, mas não significa que estejam ou sejam "doentes".
Assumir uma postura ética em não reforçar a rotulação ou uma idéia distorcida que levou o indivíduo a buscar a psicoterapia, são princípios fundamentais. É impressindível haver uma escuta e atenção voltadas ao que o sujeito tem a dizer acerca de seus sentimentos, e o que isto significa para ele. Apegar-se a nomeções patologizadas dadas pelos clientes sobre os seus sentimentos é um passo muito curto para a reprodução desta cultura da doença.